"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

SOBRE ROSAS ROUBADAS

 

 

Vivi minha adolescência numa cidade do interior, onde os rapazes tinham o costume de jogar rosas roubadas para as meninas.
Receber rosa era um elogio dos mais lindos; às vezes as rosas chegavam anônimas, e a gente ficava imaginando quem teria sido o moço que havia se aventurado madrugada adentro para jogá-las à porta, às vezes as rosas vinham com algum bilhetinho com pistas misteriosas, às vezes só uma frase bonita, ou, no caso dos já namorados ou dos mais corajosos, as declarações vinham inteiras e escancaradas.
Às vezes eram flores deixadas por amigos, que queriam fazer um agrado, mas a maioria dessas rosas eram mensageiras de beijos guardados, prontos para serem desengavetados.
Eu achava bonito isso de jogarem rosas, como se jardins fossem absolutamente necessários para toda e qualquer pessoa. Era como colocar primavera em tudo.
E tinha que ser rosa, aberta ou em botão, salvo algumas situações que exigiam algum improviso, e a flor tinha que ser colhida e jogada com cuidado, para não despetalar, uma verdadeira arte. A coisa toda exigia dos moços uma baita habilidade e alguma coragem também: os donos do jardim sempre podiam acordar e apanhar o flagrante, o que custaria boas broncas, ouvi dizer que até acontecia ameaça de tiro de chumbinho. Mas, cá entre nós, eu sempre desconfiei que boa parte das pessoas plantava os pés de rosa já mais perto da calçada justamente para serem roubadas mais facilmente.
Naqueles tempos as casas não eram confinadas entre muros de condomínios, o que facilitava tanto o roubo quanto a entrega; só não sei como os pobres garotos faziam quando a menina morava em um edifício, vai ver combinavam segredos com os porteiros, e para sorte destes rapazes apaixonados, quase não havia prédios na cidade.
A verdade é que os meninos faziam verdadeiras peripécias para conseguir as flores, pulavam muros, se esticavam através das grades, subiam pelas árvores, tomavam carreira de cachorro - flor difícil de ser colhida tinha sempre mais valor.
Uma vez uns amigos me contaram do trabalhão que tiveram em sua busca por rosas, a dificuldade de achar um botão num jardim relativamente acessível,
Pensei nessa hora que o mundo carecia de mais roseiras.
Dia depois de baile ou de festa era batata, sempre tinha rosa deixada em casa.
A gente tinha que ser esperta para pegar a flor antes do pai acordar e achar primeiro, bobear com isso era dar margem para verdadeiros interrogatórios desconfiados - ou, no caso das minhas vizinhas, era vital achar as rosas antes da empregada varrê-las achando toda vez que era macumba, ela jogava tudo fora e só ficavam uma petalazinhas para contar história.
Em alguns lugares, as moças tinham que ser mais rápidas que as formigas: até nisso os moços tinham que pensar, e uns, mais precavidos, enganchavam as rosas no portão,. minimizando riscos.
E assim, de rosa em rosa, surgiam namoros, paquerinhas, amizades, casamentos.
Engraçado falar dessas coisas como se fosse passado distante, pois, na verdade, nem faz tanto tempo assim. É que os costumes mudaram rápido demais nessa minha geração. E se a mente mal teve tempo de se adaptar a tantas mudanças, que dirá o coração!
É fato: quem hoje acha o máximo receber mensagens de WhatsApp não sabe o valor que tem uma rosa roubada com bilhetinho amarrado no caule...

  por Alda de Miranda/ em 03/2020

 

PÁGINA INICIAL

MENU DAS CRÔNICAS

Este site é administrado e gerenciado por Celso Luís Vasques -  Editado pela última vez em 10/05/2020 17:53

Envios de arquivos, fotos e correções para jacarei@jacarei.blog.br - WhatsApp > 12-997653533