"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

SABE QUEM MORREU?

 

 

Variados comércios adornavam com suas fachadas a Rua Dr. Lúcio Malta nos anos sessentas e, entre eles, a Funerária Jacareí. Recordo dos caixões cuidadosamente expostos para que o interessado escolhesse com tranqüilidade o modelo de acordo com suas posses ou sentimentos. Nos fundos da empresa fabricavam as urnas mortuárias, e o uso de serras e serrotes produzia uma sinfonia nada agradável aos ouvidos dos transeuntes.

Peculiar na época e seria engraçado nos dias atuais o obituário fixado na parede frontal. Uma moldura de zinco com folhas de papel timbradas registrando os óbitos do dia, detalhando nome, filiação ou cônjuge, local do velório e horário do enterro.

E tão logo se colocasse um novo aviso, um corre-corre se iniciava para sua leitura. Todos queriam saber quem era o morto, afinal, Jacareí era uma pequena cidade interiorana e quase todos se conheciam. Mesmo com reduzida população, as bocas do povo faziam a notícia correr de forma rápida que toda a cidade ficava sabendo. Nada parecido com a agilidade do whatsapp de hoje, mas sem ficar devendo muito.

Bastava duas pessoas se encontrarem para uma delas tomar a iniciava.

- Você está sabendo que fulano morreu?

Havendo ou não conhecimento do infortúnio pela outra parte, é lógico que o falecido se tornava o assunto da conversa que continuava no velório e no sepultamento, versando sobre os defeitos e virtudes da pessoa falecida. Velórios aqueles geralmente na residência e com aparato simples para o cerimonial: cavaletes, crucifixo, castiçais e velas. Os enterros eram sempre no Cemitério do Avareí, único existente naquela época.

Recordações de um tempo em que amizade, respeito e solidariedade eram marcantes e intrínsecos nos relacionamentos. Daquele tempo, permanece nos dias atuais somente o cafezinho servido nos velórios. E de parecença com cenas antigas, ainda temos as propiciadas por pessoas que eventualmente cruzam nosso caminho e nos dirigem a palavra com a mesma frase que ouvíamos nos áureos tempos.

- Você está sabendo que fulano morreu?

  por Waldir Capucci / Publicado no Diário de Jacareí em 06/10/2018

 

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