"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

O APITADOR AMIGO

 

 

Fui apaixonado por futebol, mas atualmente acompanho meu time somente pela televisão. Fatores como violência, interferência de patrocinadores e dirigentes, “apito amigo”, cada vez mais descredenciam o outrora futebol arte como espetáculo. Assisti vários clássicos e decisões de títulos, fiz sessões coletivas de catarse ofendendo árbitros e suas respectivas mães, jogadores, técnicos, dirigentes e gandulas. Tudo pelo meu amor ao São Paulo, que não acabou, mas arrefeceu.

Minha primeira vez em um estádio é inesquecível, e aconteceu aqui pertinho de Jacareí e faz mais de cinqüenta anos. Foi em janeiro de 1968. Eu, com quatorze anos, fui desacompanhado assistir o amistoso São Paulo x Taubaté, na festa de inauguração do Estádio Joaquim de Moraes Filho, o “Joaquinzão”. No campo, vários ídolos que conhecia só pelas imagens da televisão em preto e branco, fotos na “Gazeta Esportiva” ou figurinhas do meu álbum, como o bicampeão mundial Belini - capitão brasileiro na Copa de 1962, em final de carreira -, Picasso, Fefeu, Lorival, Babá e Paraná. Chefiando a delegação estava Laudo Natel, o maior presidente da história tricolor, e a quem foi dada a honraria do pontapé inicial da partida.

De repente, minha curiosidade foi despertada pela figura circunspecta do árbitro. Ela me era conhecida. Puxei pela memória e recordei tê-lo visto muitas vezes apitando jogos de basquete em Jacareí. Mas o que fazia com aquele uniforme preto no gramado? Lembrei-me do seu nome, aliás, de como era chamado: Emidinho (Emídio Marques de Mesquita). Então me vangloriei perante os colegas de arquibancada ali presentes pavoneando uma amizade – que ainda não existia – com aquele que era a maior autoridade em campo.

Registre-se que foi uma dupla primeira vez: eu assistir meu tricolor ao vivo e Emidinho estreando como árbitro de futebol. Sim, ele debutou na carreira ao atuar naquele rincão valeparaibano.  E saiu-se muito bem, sem interferir no resultado final, a justa vitória do meu tricolor por 2 x 1. Ou seja, não houve “apito amigo”.

Agora, décadas depois, sempre rimos ao relembrar nosso “baile de debutantes”. Não preciso mais me jactar; ele “é”, de fato meu “apitador amigo” e estamos bem vivos para contar essa e outras histórias. E como as temos!

 

por Waldir Capucci / Publicado no Diário de Jacareí em 03/09/2018

 

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