"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

"Não aguentava mais correr"

 

Ele procurou um lugar pra se esconder, mas todas as portas estavam fechadas e ele sabia que, naquela hora da noite, e com a ordem de busca a todos os envolvidos na Intentona, ninguém em sã consciência iria lhe dar abrigo .

Encostou-se numa parede de uma casa de esquina, onde um poste iluminava fracamente a rua. "Por que eu fui acabar assim?", pensou ele, lembrando das reuniões de preparação para o levante, a garantia que seria um sucesso; viu porém a derrota, as prisões e morte de alguns companheiros; a mãe o avisara, pedindo mesmo que levasse uma proteção com ele, um ponto de seu guia, mas ele não deu ouvidos, dizendo que ela "devia largar essas coisas"; não acreditava. A mãe se pegava à sua crença e rezou...

Ouviu os passos e se escondeu na virada da rua; eram três "cabeça de tomate", a Policia Especial do Distrito Federal, temida e violenta, agindo sobre ordens diretas de Filinto Müller, chefe de policia e igualmente temido; sabia que parte dos chefes já havia sido presa ou morta, e não queria ter o mesmo destino, mas sabia que não tinha escapatória; de repente, sentiu-se agarrado por algo que parecia não fazer força, mas sabia que dali não conseguiria sair; ouviu os passos dos meganhas cada vez mais perto, vendo-os passar na rua como se não o vissem; se virou pra ver quem o segurava, mas não viu viva alma; olhou de um lado a outro, nada. Foi ai que ouviu uma gargalhada, sonora, que fez com que o sangue gelasse; sabia que aquilo traria os policiais de volta; "maldito idiota", pensou,até virar-se e perceber, encostado no poste, a figura de um negro alto, chapéu desabado e terno branco, quebrado apenas pelo brilho da gravata vermelha; os olhos, como brasas, eram de fulgor igual à gravata; fumava um cigarro de palha, que logo apagou na língua e disse numa voz entremeada de risos.

- Então não acredita, não é rapaz?

- Quem é você, seu louco? - respondeu em desafio. 

- Sou aquele em quem você não acredita, menino, aquele que te safou de pouco; devia ter escutado tua mãe.

Olhou de alto a baixo a figura, que calma estava, calma ficou; devia ser algum esbirro, segurando ele até que aqueles meganhas viessem; avançou rápido para derrubá-lo, mas só o que conseguiu foi cair estatelado na rua, como se atingido.por um safanão invisível; uma, duas, três vezes, só ouvindo a gargalhada do outro, que ainda estava do.mesmo jeito, encostado ao poste; de repente, estava na frente dele, olho no olho.

- Escuta, rapaz, que vou dizer só uma vez: tu tem coração forte, mas se não te achares aqui - apontou pro peito - não vai te achar em lugar nenhum, vai cair na armadilha toda vez. Te acha e vai longe; mas anda nesse caminho onde está e vai te perder!!!

Sentiu-se novamente agarrado, dessa vez com força, e dessa vez parecia que o corpo pegava fogo, como se fosse ser devorado, a última coisa que ouviu foi a mesma gargalhada, sonora e forte. Se viu novamente sozinho, e ouviu de novo os.passos; dessa vez, vieram por trás dele, mas ele, sem saber como, antecipou o movimento, desviando do cassetete e atingindo o meganha na cabeça; negaceou o corpo, o segundo atingido no estômago com um chute preciso, indo bater a cabeça no muro e desmaiando; o terceiro sacou a arma e atirou, mas ele, num movimento rápido, desviou-se do tiro, saltando e atingindo o policial no pescoço, o osso partindo num som seco. Viu-se somente com o silêncio da rua, ainda estupefato com o que fizera; virou-se na direção do poste e percebeu então que estivera o tempo todo numa encruzilhada; respirou fundo, olhou para os lados e tomou o caminho da Lapa, onde encontrou a mãe à porta e contou a ela o que acontecera; ela nada disse, apenas retribuiu o carinho e o fez entrar...

  Thomé Madeira - 25/02/2020

 

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