"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

M U L H E R E S

 

 

Conheci “Chico” – assim o apelidei – em um albergue municipal.

Idoso e com a mente comprometida pelo Alzheimer narrou antigos casos de amor com sorriso de conquistador nos lábios. Tinha boa aparência e, certamente, foi um homem muito bonito e galanteador. Rindo muito, nas poucas conversas, disse ter sido um amante em especial. Falou dos primeiros amores, como Rita, que deixou cicatrizes na alma e se apossou, quando partiu, de tudo quanto podia; não levou dinheiro porque não tinham.

Cristina foi amor inconsequente que partiu sem dizer se um dia voltaria. Não deixou aviso ou sequer deu uma mínima explicação. Cansado de tanto aguardar decidiu ir embora. E, ao contrário dela, deixou um bilhete contando que foi pro mar.

Outro amor foi Januária, na verdade platônico pela moça encantadora que, tal como a sereia, hipnotizava quem lhe dirigisse o olhar. Todos se rendiam ao contemplá-lá debruçada na janela. Seus encantos tornavam competidores, contra os meros mortais, o poderoso e inescrutável mar, e também o sol, reluzente astro rei. Desistiu e buscou novos ares.

Carolina emanava tristeza. Por mais que lhe mostrasse as belezas do nascer de uma rosa ou do cair de uma estrela no céu, ou ainda a alegria contagiante do povo a sambar, preferia guardar com lágrimas a dor de todo esse mundo. O tempo passou em sua janela e ele passou também.

Amor correspondido foi Maria, mas sem compromisso de dar certo. Durou o tempo necessário para ser inesquecível, e os laços foram desatados por vontade dela que saiu pela porta sem olhar para trás. Ele nada pode fazer, pois só tinha a agonia para lhe oferecer.

Citou também Cecília, Renata Maria, Rosa, Joana, Terezinha, mas não detalhou os relacionamentos. Morreu três dias após chegar. Sem documentos foi enterrado como indigente numa cova grande para tão pouco defunto. Um “sem nome”, cujo patrimônio era o lote de histórias de amores inverossímeis.

Não teve lápide, impossível identificar um homem que não existiu. Fui embora lamentando a partida daquele amante especial, que na verdade, era musical. A fonte dos seus relatos era puro DNA de quem melhor retratou a mulher na música popular brasileira.

Afinal, quem como ele, não sonhou um dia ser o Chico Buarque?

Publicado no Diário de Jacareí, Caderno Estação, em 08/02/2020

por Waldir Capucci

 

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