"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

MELQUIOR UM SORTUDO INJUSTIÇADO

 

 

Tenho saudade do Melquior Pereira, amigo e profissional a quem confiei por muitos anos os cuidados com meus cabelos, ainda no tempo que eram longos e esvoaçantes. Sua aparência física já o tornava engraçado, um quase sósia do famoso cômico Zé Trindade, mas com uma barriga mais proeminente ainda, e ouvir suas piadas e histórias sobre pessoas e fatos de Jacareí tornavam a espera pelo atendimento uma diversão prazerosa.

Ficou famoso, também, pela incrível proeza de ganhar duas vezes na loteria e continuar pobre. Sim, foi duplamente bafejado pela sorte e abocanhou sozinho o primeiro prêmio da Loteria Federal com a totalidade das vinte frações em seu poder. O dinheiro esvaiu-se pelo vício em jogos de toda espécie, investimentos e amigos errados, futilidades e boemia.

Após as quedas, novos recomeços com total dignidade e extrema simpatia. Retomava a profissão de barbeiro sabendo que os fregueses, como eu, nunca o deixariam.

Na lida diária reforçava a renda com apontamentos do jogo de bicho, e para os apostadores gabava-se por interpretar sonhos, orientando os jogadores em quais animais deveriam jogar. Assim terminou os seus dias: contando histórias, feliz no que fazia, recebendo provas de carinho e amizade e brincando com a profissão de “consultor e corretor zoológico”. Não sei o herdeiro da tesoura dourada que usava com maestria no cotidiano e dizia mentirosamente ser banhada a ouro. Quantas vezes o ouvi dizer que era, junto com a família, as verdadeiras riquezas que restaram dos tempos nababescos.

Mágoas? Dizia-me sempre que não tinha nenhuma e, tampouco, se arrependia do desperdício de tanto dinheiro durante a vida. Afirmava ser grato a Deus por ter-lhe concedido desfrutar de tantos prazeres mundanos e que se pudesse faria tudo de novo, sem qualquer remorso.

Gozação? Sempre, era insuperável! Reclamou em nossa última conversa que somente pelo fato de ser brasileiro, país de terceiro mundo, o seu nome não constava no Livro de Recordes do Guinnes. Qualquer outro estrangeiro que tivesse ganhado duas vezes o maior prêmio da loteria e ficasse pobre certamente obteria distinção. Um injustiçado.

Sempre recordo disso. Foi essa a última vez que rimos juntos.

 

por Waldir Capucci / Publicado no Diário de Jacareí em 02/02/2019

 

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