"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

LILI E VIVI

 

 

Todo final de mês a cena se repetia. O automóvel luxuoso parava na porteira que dava acesso à casa simples da zona rural. Então, o motorista uniformizado abria a porta do veículo para que Dona Gertrudes, sua patroa, descesse para cumprir mais uma de suas ações filantrópicas: doar cesta básica aos infortunados Neco e Durvalina, moradores do local, que eram gratos pelo gesto.

A quantidade de alimentos recebida era mais do que suficiente para que passassem o mês. O restante para as necessidades – frutas, legumes, temperos e hortaliças – era obtido no próprio terreno onde residiam.

Na pobreza em que viviam só poderiam retribuir tanta bondade com preces fervorosas que faziam pela saúde da benfeitora e seus familiares.

Dona Gertrudes vinha sempre acompanhada da filhinha, Lili, que permanecia todo o período da visita no colo da secretária particular. E o grande contraste das visitas não era a riqueza e pobreza dos envolvidos, mas o das filhas; Neco e Durvalina tinham Vivi, da mesma idade, mas que permanecia solta e costumava correr ao lado do carro luxuoso quando iam embora.

Lili e Vivi tinham vida completamente diferentes. A primeira, sempre com lacinhos na cabeça e exageradamente perfumada, tinha modos comportamentais exemplares. Observava com os olhos aguçados tudo que acontecia ao redor, mas não tinha liberdade. Qualquer iniciativa de brincar dependia da aprovação da mãe Gertrudes, que a controlava com um simples olhar.

Já com Vivi era bem diferente. Completamente livre naquele ambiente paupérrimo, tinha seu corpo magricelo carregado, além dos carrapatos, de uma sujidade obtida por andar no mato e brincar em espaços enlameados. Não estava sujeita à aprovação de Neco ou Durvalina.

Os olhares trocados entre Lili e Vivi davam mostras claras que, na verdade, mais do que brincar juntas, queriam trocar de lugar. Lili almejava ter o corpo sujo de lama e impregnado de carrapatos, correr livre pelos campos e escapar de atividades bobas, como ir a salões cuidar da sua aparência.

Vivi, apesar de toda alegria pela liberdade também queria ser diferente. Viver na cidade, ostentar laços coloridos na cabeça, o corpo perfumado, fotos em revistas e jornais, passear naquele automóvel maravilhoso e comer refeições balanceadas ‘devia ser muito melhor’, pensava.

As divagações e trocas de olhares foram interrompidas no momento da despedida dos adultos. Visando proteger Vivi para que não fosse atropelada pela mania de correr ao lado do veículo em marcha, Neco também a pegou no colo. Enquanto as pessoas se despediam com acenos, as pequeninas usaram a linguagem que lhes era comum e latiram uma para a outra, deixando para trás as vontades. Pelo menos, até a visita no próximo mês.

 

por Waldir Capucci / Publicado no Diário de Jacareí - Caderno Estação em 14/03/2020

 

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