"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

HERÓI DE VERDADE

 

José Antonio Marson

Eu era ainda criança e cursava os primeiros anos de aprendizado quando o conheci. E nossa convivência durou cinco anos naquele prédio, período do início da minha vida escolar. Recordo quando se apresentava na classe e todos ficávamos em pé, e da mesma forma nos portávamos quando se retirava. Ele tinha um diferencial que o tornava mais querido que os demais adultos da escola.

Sua função? A mais simplória na hierarquia, um mero servente escolar cuja tarefa primordial consistia em varrer o pátio e as salas, mas fazia muito mais. Apartava nossas brigas no recreio e nas ruas, consertava portas e janelas, eliminava goteiras, cortava a grama, cuidava das árvores e fazia todos os reparos elétricos, hidráulicos e mecânicos. Um autêntico super-herói da minha infância, capaz de realizar tarefas complexas superando todos os obstáculos sempre com um sorriso característico.

Cresci e mudei para outra unidade de ensino, fui enfrentar novas etapas do aprendizado e acabamos perdendo contato. Ficou para mim a lembrança do servente amigo e, nas poucas vezes que o encontrei depois, recebi além do abraço o mesmo sorriso marcante como saudação.

Quis o destino que com o passar dos anos eu me tornasse amigo de seus filhos, elo que permanece ainda hoje. E a amizade me revelou um lado desconhecido daquele senhor. O humilde servente era um militar reformado com participação nos campos de luta da Segunda Guerra Mundial e sobrevivente da batalha de Fornovo di Taro, na Itália. Sim, não era somente herói dos meus tempos de escola primária, era mais do que isso, um dos heróis da pátria, expedicionário da FEB, que por sua bravura recebeu como prêmio pós-guerra o nada prestigioso cargo de servente escolar, que exercia com tamanha dignidade.

Meus olhos passaram a vê-lo sob outra ótica, o respeito cresceu, assim como eu também cresci e as obrigações de adulto provocaram nossa distância por longo período. Casei, tive filhos e netos, trabalhei e morei em outros locais, e nas poucas vezes que retornava para minha cidade os encontros familiares e com amigos ocupavam minha agenda. Fiquei anos sem encontrá-lo, até que recebi a notícia de sua morte, aos 98 anos de idade, após longa enfermidade. O último combatente da campanha na Itália que permanecia vivo em minha cidade finalmente fora derrotado. Porém, ao mesmo tempo, viver quase cem anos foi sua derradeira vitória.

Decorridos vários meses da sua partida pus-me a relembrar algumas passagens do nosso relacionamento. E senti orgulho de ter conhecido um herói real, de carne e osso. O velho servente do meu passado, sem superpoderes fantasiosos, capa, espada ou máscara, tinha como armas uma simples vassoura, um sorriso nos lábios e um coração enorme, e muito mais força e poder que os super-heróis atuais, com seus nomes americanos e japoneses que nem consigo decorar.

São gostosas e saudosas lembranças que me deixam convicto que já não se fazem ou existem heróis como antigamente.                                    

por Waldir Capucci / Imagem: Benedito Veloso

 

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