"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

ELA NÃO SABIA... MAS ERA A MINHA NAMORADA

 

 

Uma das fases mais engraçadas e até mais complicada da vida é quando chega a adolescência!

Treze anos! Nesta fase da vida achamos que já chegou o momento de conquistar muitas coisas. Até mesmo o primeiro namoro!

Vivi minha infância e a adolescência na Rua Bahia, região quase central de Jacareí. Como muitos eu também estudava no CENE Silva Prado. Neste período tive como vizinhos a família Gondo, descendentes de japoneses. Uma família de irmãos, o Ângelo, era meu melhor amigo, embora ele já tivesse seus 20 anos. Também tinha o Paulo, o Miguel, o Luís, a Rosa, a Catarina e a Terezinha. A Rosa era cabeleireira e a Catarina era a ajudante e também manicure. Os homens montaram uma bicicletaria que funciona até hoje na Avenida Siqueira Campos.

Eu tinha o hábito de todos os finais de tarde "pular o muro" para ir ajudar a Rosa, limpando o salão, secando os cabelos das mulheres, tirando aqueles "bobes" engraçados, também chamados de rolo de cabelo e sempre ganhava uns "trocados". Mal sabia ela que eu gostava mesmo era de filar a janta (comida japonesa) e escutar com o Ângelo algumas músicas japonesas. Embora não entendesse nada, eram bonitas! Desde então, passei a gostar mais de "coisas" japonesas, principalmente da comida, das músicas Enkas, das meninas...

E hoje, aqui no Japão, quando o pensamento começa a viajar ao Brasil, surgem tantas recordações engraçadas. Para as lembranças ruins nem perco meu tempo, no entanto, para as lembranças sadias, alegres... Aquelas que marcaram um determinado momento na vida, vale a pena relembrar cada cena, cada instante...

Mas foi no CENE que conheci a "japonesinha" mais linda de Jacareí, e por sorte, era da minha sala! Estudamos juntos por alguns anos.

Não demorou muitos dias e eu já havia descoberto onde ela morava e para minha felicidade era perto de casa, na Avenida Siqueira Campos. A família tinha uma quitanda, até que bem estruturada, na parte de cima do sobrado a residência. Hoje o espaço do sobrado foi absorvido pela Loja JB.

Na parte da manhã eu costumava ir até o Laticínios que ficava no final da Rua Bernardino de Campos, para comprar o leite que minha mãe mandava buscar todos os dias. Que felicidade! Eu sabia que iria vê-la! Não demorou muito eu já estava passando pela frente da quitanda em média 5 vezes, todas as manhãs, todos os dias! O engraçado era que as minhas vizinhas me pagavam para ir comprar o leite. Mal sabiam elas que só para passar em frente daquela quitanda eu iria de graça!

Mas a "japonesinha" era séria demais e eu totalmente ao contrário. Eu era bagunceiro, gostava de jogar bola, estar sempre envolvido em algumas atividades agitadas. Naquela época tinha sempre o "grupinho" das meninas e outro dos meninos. Eu sempre procurava fazer essas atividades nos intervalos em algum lugar de onde eu pudesse observar aquela "japonesinha".

Eu gostava de escrever e sempre antes de dormir eu fazia um bilhete para entregar para ela. Escrevi centenas deles, mas nenhum foi entregue. Embora meio que "destemido" entre os amigos, eu tinha algo em  mim que me impedia de entregar esses bilhetes, talvez vergonha, talvez medo, creio que nunca vou descobrir o motivo. Me lembro que em todos os bilhetes eu escrevia que a amava muito e que seria a pessoa mais feliz do mundo, se ela aceitasse namorar comigo.

Na metade da oitava série recebi uma transferência compulsória da escola, pelas muitas bagunças que fazia. Naquele dia meu mundo rolou abaixo literalmente. Na companhia de uns 5 ou 6 amigos, caímos do forro dentro do banheiro das "meninas". Eu estava voltando de uma suspensão por ter colocado bombas no banheiro e trancado a porta, com o inspetor de alunos Sr. Nelson dentro do banheiro. Coitado do "baicú" apelido que os alunos colocaram nele.    

Fui transferido para o Colégio Lamartini Dellamare, mas faltava sempre na última aula para dar tempo de ver e acompanhar a saída dos alunos do CENE, ou para ser mais objetivo, seguir de longe os passos daquela "japonesinha".

No CENE tinha um japonês bem mais feio que eu,  que não desgrudava da "japonesinha". Se tornou meu "inimigo mortal". Para sacanear com o japonês eu gostava de dar sempre grandes esbarrões pelos corredores da escola, mas em nenhum momento houve um enfrentamento.

A "japonesinha" tinha uma irmã que até hoje eu não descobri por qual motivo ela "não ia com a minha cara". Sempre que eu estava por perto, dando aquelas "vigiadas", ela surgia com aquele olhar fulminante que me assustava. Me lembro bem um dia que ela me deu uma tapa nas costas, pelo simples motivo de me ver acompanhando os passos da irmã. Acho que ela se chama Inês.

O tempo foi passando e a distância da "japonesinha" foi aumentando! Conheci muitas meninas, algumas delas até queriam namorar comigo, mesmo eu sendo aquele moleque "peralta", mas eu tinha, mesmo que somente nos meus sonhos, uma namorada, da qual eu era apaixonado e não podia trair os meus sentimentos. Hoje relembrando isso, eu observo que fui fiel a um amor, pelo menos uma vez na vida.

Não demorou muito, a família deles mudaram do local, o sobrado foi demolido e eu perdi o contato com ela. Via sempre uns primos e aproveitava para perguntar sobre a "prima" mas eles mentiam muito.

Depois disso tive algumas namoradas, mas era complicado abrir os olhos depois de um beijo e não ver aqueles olhinhos "puxadinhos".

A vida seguiu, amei de verdade outras mulheres, me casei e descasei algumas vezes, mas nunca deixei de lembrar dos traços daquela "japonesinha".

Hoje relembrando tudo isto percebi que o amor da "adolescência" é o mais puro de todos!     

 

por Celso Luís Vasques - Japão - 12/06/1996

 

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