"CRÔNICAS DA CIDADE"

 

 

TIME 13 DE MAIO

 

 

O ano era 1979. Foi um longo dia de trabalho, cansativo, e, de certo modo, lento ao relativizar as horas com que ficou esperando o momento de retornar à sua casa, à sua família. Observa-se este homem negro, alto, forte, ombros largos, caminhando até o ponto de ônibus com alguns de seus companheiros de serviço. Era uma nova cidade, Jacareí, interior de São Paulo, diferente do que encontrara em outras andanças. Buscava um recomeço e este lugar simples, aparentava dar-lhe o que precisava. Jorge viera de Duque de Caxias, e era natural de Piraí, estado do Rio de Janeiro. Mudança que veio para transformar seus objetivos de vida, de conduta.

Nesse fim de tarde foi convidado para uma partida de futebol entre amigos. Corriqueiro, há de se pensar. Jorge cultivava em suas veias o samba de Bezerra da Silva, o romance de Roberto Carlos, os sambas-enredos das escolas. Futebol paixão nacional, não haveria de ser diferente em Jacareí, e por quê não participar? Com o tempo, os encontros tornaram constantes; um hábito saudável, de entretenimento, à princípio, porém algo que o homem abraçou como uma oportunidade.

Jorge pensava, indagava em seu interior, a dignificação prometida do ser humano por meio do trabalho, a sua vida resumida à rotina maçante e repetitiva que o conduzia a lutar com todas as forças para um futuro melhor, uma casa, um lar para sua esposa e filha. Mas um homem também tem sonhos, um homem também almeja mudanças na sociedade por diferentes meios, como o esporte, o lazer. Momentos que renovassem suas forças, instigasse seus instintos, algo para trazer liberdade. Liberdade.

Sabe-se que um time foi criado nesse tempo; time 13 de Maio, amador, com disputas na cidade, entre os times convidados. A região do bairro Vila Zezé, em que hoje está o bairro Parque dos Príncipes, na época, abrigava um terreno descampado, em que Jorge pediu emprestado para limpar, cuidar e preparar um belo campo de futebol, ‘Campão’, como era chamado. Carregando as traves, resolvendo com um conhecido aqui, outro ali, muito cal, rede e materiais necessários para as partidas acontecerem.

13 de maio é uma data com relevância histórica, e para quem o conhecera bem, sabe que isso não foi uma coincidência aleatória. Jorge, este homem guerreiro, bravio, lutador e amigo de todos, trouxe em seus ombros não somente o time, como também a carga de quem não teme as opiniões alheias, as falhas de quem deveria cumprir com sua palavra, e dirá à sua segunda filha, anos mais tarde: “Não confie em ninguém.” Pondere-se aqui, com algumas exceções, é preciso salientar. Sua companheira de casamento e de vida, Neli, a quem lavava à mão os uniformes do time, toda segunda-feira de manhã. A quem lhe ouvia sem julgar, a quem lhe deu amor para continuar.

Salve São Jorge Guerreiro, o quadro na sala de estar, na casa popular que conseguiram adquirir, no início do bairro Conjunto São Benedito. Ele trouxera para o lar - além das dores do fim do dia de serviço, pela Prefeitura de Jacareí, mudas para plantar no quintal recém chegado. Mudas que se tornam gigantescas árvores, pés de eucalipto, duas árvores pata de vaca, um limoeiro, pé de mamão, bananeiras, entre outras maravilhosas plantas. Em uma tarde, em que Neli passava cuidando do jardim, ouvia um senhor arrogante, com tamanha empáfia dizer no rádio: “Perdi a eleição para ser presidente da Liga Municipal de Jacareí, eu, que sou formado, por um homem semi-analfabeto.” O que ele não sabia, ou não possuía inteligência para tal proeza, é que posições sociais são relativas, inconstantes, dessa vida nada se leva, mas há de se compreender, que se aquele bravo homem, estava naquele patamar foi por um esforço genuíno, um sonho de menino, que assumiu responsabilidades para trazer aos jovens habitantes da cidade opções de liberdade.

A tarefa não era fácil: jogos aos domingos, reunindo os materiais que ficavam em sua casa; seus companheiros estavam sempre ao seu lado, uma das exceções citadas anteriormente, Carlão, Zé Ramos, entre outros. Segunda-feira eram as reuniões na Liga de esportes, onde trazia os relatórios e a súmula de como foi tudo executado, o trabalho do juiz e dos jogadores. Em casa, fichas do time, jovens de idade entre 18 a 28 anos, pranchetas, letreiro, canetas hidrográficas, a caneta preta Bic que mais utilizava, a letra cursiva, inclinada para o lado direito. E realizar tudo isso para quê, afinal, se não era remunerado? Ora, um homem também sonha. Sim, muitas destas linhas são embaladas pela canção

de Gonzaguinha, de 83. E quando ele canta: “O homem se humilha, se castram seus sonhos”, se encaixa perfeitamente com o que aconteceu nos anos seguintes. Este homem não é forte o tempo todo. Seria por falta de reconhecimento ou seria uma simples fuga, é calculável pensar, Jorge encontrou-se diante de um momento em que precisa participar de reuniões do Alcoólicos Anônimos da cidade, em busca de cura. Ganhou algumas fichinhas, se orgulhava, após um tempo. Embora continue lutando, perdas aconteceram, como a casa própria, mudando-se com sua família para o bairro Cidade Salvador, que à época, era simples, ruas sem asfalto, caminhos longos até a escola das crianças (que permaneceram na Profa. Delly Gaspar dos Santos, no bairro Cecap, como popularmente era chamado. Era 1992, a água vinha do poço, na casa em que foram morar, era preciso ferver, esperar esfriar, para assim, beber.

Seria o time 13 de Maio uma falsa liberdade, assim como a abolição da escravatura? Um homem negro que carregava tantas dores em seus ombros, se esgueira entre as ruas, se perde entre copos, se desfaz em gritos, perdem-se os sonhos, sim, este homem, menino, também chora, sangra, adoece, perde os seus. Contudo, nada foi em vão. O time permaneceu até metade dos anos 90, os laços formados, as memórias afetivas, o empenho e dedicação ficarão para sempre marcados. Sempre.

Jorge Corrêa, carioca, sua voz forte, seu sotaque maroto, Jorjão, assim era conhecido, se tornou um jacareiense que todos deveriam se orgulhar.

  por Michele Corrêa em 02/2020

 

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