ESPAÇO CANTO DAS POESIAS

 

Benedicto Sérgio Lencioni

UM DIA, UMA NOITE 

 

A noite termina

e o dia que findou

já fez passado,

uma morte famosa,

um acidente fatal,

uma flor que murchou

outra que nasceu,

um burburinho de praça

um jogo de futebol.

E a noite que agora chega

um dia todo esperou.

Risos soltos,

Peitos cansados

Mãos calosas,

choro de dor.

Na casa do pobre, a miséria,

mais uma vida ceifou.

 

Jornal que o vento carrega

a imagem do mundo rasgou,

guerrilhas, lutas, combates,

gente igual a gente,

nos campos distantes tombou.

Fim de dia. Noite alta.

O mundo todo passou,

a glória, a morte, o nascer.

O riso, a canção e a flor

e trago na alma dorida

a triste imagem sentida de um tempo que já passou.

E o mundo que agora gira,

girando gira sem fim,

dizendo ao homem sozinho

que a vida é assim... assim...

E trago vivas no ouvido

as vozes de todo um dia,

o jornaleiro,

a criança, o cão,

o carro, o rádio, o sorriso,

o choro, o consolo,

a oração.

 

E agora

restam imagens e sons

nesta hora morta e triste

- retalhos de mil lembranças -

que todo meu ser assiste.

O barulho - silêncio

das máquinas,

do besouro contra a luz,

de um latido distante,

do chorar da criancinha,

do gemer dos guerrilheiros,

do tombar do combatente,

do jornal que o vento carrega,

do arfar do peito dorido

dos ais das noites de amor

de um pedaço de canção...

É a noite que encerra

o dia que passou.

B. S. Lencioni – 1967

 

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CANTO DA POESIA

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